.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Hugo Chávez: "Por enquanto, não pudemos".



JB INTERNACIONAL PAG A 21

internacional@jb.com.br

Publicado no JORNAL DO BRASIL - TERÇA-FEIRA, 4 de dezembro de 2007

OPINIÃO

VENEZUELA

"A derrota de Hugo foi a melhor coisa que poderia acontecer a ele. E tenho certeza que ele percebeu isso. O mundo inteiro vai começar a olhar a Venezuela como um exemplo de democracia. Os fanfarrões do Pentágono já estão achando que a vitória foi dos Estados Unidos. Por aqui, o Lula vai fazer um improviso e dizer: "Eu não disse que na Venezuela há democracia?" E o povo, em geral, vai enxergar a Venezuela como um belo exemplo de como podem conviver harmoniosamente as idéias contraditórias."
Wilson Gordon Parker, Nova Friburgo (RJ)



"Os jovens são atores-chave para se entender o que passou na Venezuela este ano. Eles têm temas concretos a defender e deram sinal de amadurecimento."
Carlos Correa, analista da Ucab

"O desafio é ver Chávez como um democrata que respeite as instituições. Os problemas que a reforma já não resolveria agora terão de ser resolvidos por ele, com menos poderes."
Francisco Coello, sociólogo


Presidente reconhece vitória do "não", mas insiste na revolução bolivariana

Chávez não abdica da reforma

Camila Arêas


"Por enquanto, não pudemos".

A frase do presidente venezuelano, Hugo Chávez, logo depois de reconhecer a reprovação à sua reforma constitucional ilustra que o líder não deu sua revolução por vencida. No entanto, o peso e simbolismo da primeira derrota chavista nas urnas em nove anos de governo fortalece uma oposição até ontem sem legitimação.

A diferença foi apertada: o "não" à reforma ganhou por apenas 124.962 votos num universo de 9 milhões de eleitores. O resultado é crítico porque Chávez criou os meios de sua derrota pessoal: ao condicionar a reforma à continuidade de seu governo, restou a imagem de que o derrotado foi ele. Mas esta é uma impressão que tem cinco anos pela frente ­ Chávez deixa o poder em 2012 ­ para ser reconstruída. Por isso, o líder não cedeu:

­ Não pudemos agora, mas a proposta segue viva. Digo a todos os venezuelanos que a proposta social contida aqui a seguiremos trabalhando. Aprendemos a converter aparentes derrotas em vitórias morais que depois se convertem em vitórias eleitorais. Para mim, esta não é uma derrota. É um outro "por enquanto". Tenho preferido assim, tem sido melhor assim ­ disse, repetindo a frase de 1992, quando sua tentativa de golpe fracassou.

As declarações foram dadas minutos depois de conhecido o resultado. Pelos seus gestos e expressões, pareceu derrotado, avalia Humberto Njaim, cientista político da Universidade Metropolitana:

­ Ele saiu golpeado. Não há dúvida para quem está habituado com suas aparições diárias. Mas ele está acostumado com longas batalhas.

Para o sociólogo Francisco Coello, da Universidade Católica Andrés Belllo, o líder não deu sinal de compreensão do que se passa no país:

­ Chávez deveria ter dito que quer se aproximar das aspirações dos venezuelanos, mas ao insistir na revolução, se distancia. Ao tentar implantar seu modelo por outras vias, trará problemas.

O sociólogo ressalta que "o desafio é ver Chávez como um democrata que respeite as instituições":

­ O resultado reforçou os valores políticos. O Congresso governista que aprovou a reforma sai deslegitimado. Os golpistas ficaram de lado, a vitória foi da via política, ganhou a reconciliação, o consenso. Os problemas que a reforma já não resolveria agora terão de ser resolvidos por ele, com menos poderes, com escassez de alimento, com enorme déficit econômico. Difícil será governar como um democrata.

O politólogo Carlos Correa analisa que a derrota é a expressão de um duplo erro político, primeiro no modo como foi formulada a reforma e, depois, no antagonismo entre seu conteúdo e o socialismo:

­ A reforma não foi escrita com as bases civis que apóiam a revolução, foi imposta de cima para baixo. Por isso, os venezuelanos que votarem em Chávez na eleição não votaram pela reforma agora. Chávez não os convenceu e isso terá um custo.


Oposição deve rumar ao centro

O contexto revolucionário transformou os jovens em políticos. Os partidos de oposição deixaram a máscara golpista para assumir o perfil democrático. A configuração das novas forças de oposição na Venezuela começa a se esboçar agora. E a tendência que se indica é a centralização ideológica.

Os jovens são atores-chave para compreender tudo o que aconteceu este ano, ilustra Carlos Correa:

­ O movimento estudantil do país é uma incubadora de líderes. Muitos vislumbram uma carreira política, outros já são integrantes dos partidos Novo Tempo e do Primeira Justiça, outros simplesmente rechaçam um modelo de país como Cuba. Foram seus porta-vozes que chamaram os abstencionistas a votar, que se pronunciaram depois do resultado das urnas. Os jovens têm temas concretos, específicos a defender e deram agora um claro sinal de amadurecimento.

O presidente da Federação de Centros Universitários da Universidade Central da Venezuela, Ricardo Sánchez, assegurou ontem que o "movimento estudantil seguirá na luta em função de assumir os espaços de uma nova direção política e trabalhar em prol da construção de uma maioria":

­ Ganhamos visibilidade e assumimos os espaços de direção política tanto universitária como de rua para dar novas caras ao país.

Mas a tarefa pela frente não é fácil: a oposição deve ser completamente reestruturada. Francisco Coello avalia que o primeiro passo é definir as linhas políticas:

­ Uma fusão da oposição com plataforma única é muito difícil, por isso é preciso pensar na criação de tendências de centro, direita, social-democracia. É preciso, portanto, simplificar a política e torná-la mais fluida. O modelo de coalizão da Concertación, do Chile, é uma boa saída. Além disso, é preciso criar pontes de negociação com setores do governo, o que não é fácil.

O secretário-geral do partido socialista Podemos, que se desligou da aliança chavista durante o debate da reforma no Congresso, disse que a derrota expõe o que há muito tempo já se percebia:

­ A conformação de um novo mapa político, um país cuja maioria não está com as posições extremas, mas de centro ­ declarou Ismael García.

Um primeiro passo poderia ser dado com a proposição de uma alternativa à reforma do presidente, avalia Coello:

­ Até agora a oposição não foi capaz, mas se agora conseguir traduzir o rechaço da população em uma nova proposta e modelo de país, então ganhará adeptos. A oposição ganhou moralidade, agora precisa de consistência. Precisa pensar quais são as necessidades da população e propor sua plataforma.

*

0 Comentários:

Postar um comentário

<< Home